Céu estrelado

barabara

This is the latest blog post from Bárbara Matias, an aspiring journalist and MA student in Communication Sciences in UTAD, Portugal. Read the original version in Portuguese or the English translation underneath.

Este é o mais recente texto de Bárbara Matias, aspirante a jornalista e aluna do Mestrado em Ciências da Comunicação na UTAD, Portugal. Leia a versão original em português ou, se preferir, a versão em inglês.

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Céu estrelado

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Flickr Commons: David Blackwell http://eurone.ws/1ixbzVq

Bancos de jardim, estações de metro ou centrais de camionagem, escadas ou passeios, viadutos, pontes e abrigos de emergência foram a casa de 4.420 pessoas em Portugal no ano de 2013. De acordo com uma notícia divulgada pelo jornal diário português Público, este é o número de pessoas acompanhadas no âmbito da Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, coordenada pelo Instituto de Segurança Social.

Quer isto dizer que não estamos a ver o quadro total. O borrão da vida nas ruas é mais negro, mais denso e mais extenso do que aquilo que os números nos mostram.

Em Lisboa, 852 pessoas vivem nas ruas. Pensa-se que este número possa ter triplicado nos últimos dois anos.

Eu cresci numa aldeia. Estudei numa vila. Formei-me numa cidade pequena. Há uma soma de dias tive a experiencia de viver numa cidade grande.

Aqui sim, vi estes números carregados por gente. Isto afetou-me todos os dias enquanto lá estive. Sempre que me queixava da chuva (que foi uma constante durante os meses em que ali morei), lembrava-me de um casal que já teria galgado os 70 anos (ou não, porque a idade é dada pela vida que levamos e não pelos anos que vivemos), que muitas vezes encontrei a vaguear pelas ruas da cidade. Caminhavam de mãos dadas. E acredito que vão acabar assim, enlaçados, mesmo que a vida apenas lhes tivesse dado nós. Nós que certamente não conseguiram desfazer.

Pediam-me uma moeda, ou comida. Dava o que podia, mas sabia que não chegava. Nunca chegaria. Na primeira vez que me cruzei com eles desfiz-me em lágrimas mal continuei o caminho. Por vergonha da minha fragilidade ante tamanha força, contive as lágrimas enquanto os olhei nos olhos. Depois fui menina esbofeteada pela crua realidade do meu país.

Em Portugal, os Censos 2011 contavam 696 pessoas em situação de sem-abrigo. 241 dos quais em Lisboa, 218 na região norte, 113 no Algarve, 66 na região centro do país, 25 no Alentejo, 22 na ilha da Madeira e 11 nos Açores.

Os conflitos familiares, o desemprego e a doença física ou mental são as mãos frias que mais encaminham pessoas para as ruas. A grande maioria dos sem-abrigo sujeitos a inquérito é homem e quase metade tem entre 35 e 54 anos. Neste país à beira-mar plantado, 22 pessoas que deambulam noite e dia pelas ruas têm formação superior. Sim, o canudo não lhes deu teto, nem lhes basta para cobrir o corpo.

Em Portugal são, atualmente, 14 os núcleos investidos da missão de garantir que ninguém está mais de 24 horas na rua a não ser que essa seja a sua vontade.

E aqui o cenário ganha contornos completamente diferentes. O livre-arbítrio. O querer viver na rua. A calçada portuguesa como cama, o céu estrelado como teto, a noite como conselheira, o frio e a chuva como companheiros no inverno, o calor como amor de verão. Quem dera poder levá-lo para o inconstante outono, para o cruel inverno.

Estas pessoas estão na rua porque querem. As dificuldades de integração. O não saber viver consigo. O não ter para quem voltar. O não ter quem aguarde pelo seu regresso.

Mas há sempre quem ajude. Associações, grupos, pessoas. Não só com moedas ou comida. Mas com ouvidos, braços, sorriso e coração abertos. Em Portugal há quem seja casa. Sejamos todos.

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Starry Sky

Benches, metro stations and central trucking, stairs and sidewalks, overpasses, bridges and emergency shelters were home to 4,420 people in Portugal in 2013. According to a report released by the Portuguese daily newspaper “Público”, this is the number of people served under the National Strategy for the Integration of Persons in Situations of Homelessness, coordinated by the Institute of Social Security.

This means that we are not seeing the total picture here. The blur of street life is darker, thicker and more extensive than the numbers are showing us.

In Lisbon, 852 people live on the streets. It is thought that this number has tripled in the past two years.

I grew up in a small village. I studied in a village. I graduated in a small town. I’ve recently had the experience of living in a big city.

Here I saw these numbers represented in people. This affected me every day while I was there. When I complained about the rain (which was constant during the months I lived there), I remembered a couple who had already struggled some 70 years (or not, because age is given by the lives we lead, not by years we live) that I often found wandering on the streets. They were always offering hands.

They asked me for a penny, or for food. I gave them what I could, but I knew that it was not enough. The first time I came across them, I broke down into tears right after. I was ashamed of my weakness in face of such a force. I held back tears as I looked into their eyes. After that I was slapped by the raw reality of my country.

In Portugal, the 2011 census counted 696 people homelessness. 241 in Lisbon, 218 in the northern region, 113 in Algarve, 66 in the central region, 25 in Alentejo, 22 in the island of Madeira and 11 in the Azores.

Family conflict, unemployment and physical or mental illness are the cold hands that guide people to the streets. The vast majority of homeless are man and almost half of them are between 35 and 54 years. 22 people who roam the streets day and night have higher education. Their degree gave them no roof.

In Portugal, 14 cores are now invested in the task of ensuring that no one is more than 24 hours on the street, unless it is your desire.

And here the picture gains completely different contours. The free will. The desire of living on the streets. The sidewalk as bed, the starry sky as roof, the night as counselor, the cold and the rain as companions in winter, the heat as summer love. Wish we could take it to the fickle autumn and to the cruel winter.

These people are on the street because they want to. The difficulties in integration. Failure to learn to live with themselves. No one to come back to. No one waiting for you to return.

But there is always someone to help. Associations, groups, people. Not only with coins or food. But with ears, arms, smiles and hearts open. In Portugal some people are homes. Let us all be.

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One thought on “Céu estrelado

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