A importância de ser Reis (Português)

by Bárbara Matias

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Photo credit: Bill Strain – mrbill78636 http://creativecommons.org/licenses/by/2.0/deed.en

“O que faço com as mãos?”

Não me lembrava de que, no final dos braços estavam duas mãos, dez dedos. Até agora.

Tremem. Entrelaçam-se. Entram e saem dos bolsos. Perdem-se pelo cabelo que, molhado pela chuva, ganha umas curvas rebeldes.

Depois das mãos, também me lembrei dos pés que agora batem contra o chão, coordenados com o tique-taque do relógio da parede.

Paro e reparo que a parede tem duas fendas.

Penso na roupa que trago vestida. Escolhi uma camisola com várias cores. Pode baralhar quem olha para mim, segundo um blogue que estuda o significado das cores.

“Qual será o significado de tantas cores juntas?”

Revejo o que devo dizer, qual o tom de voz apropriado para cada palavra. Dou por mim a agrupar frases e a tentar fugir das que são feitas.

“Qual o meu defeito? Qual a minha virtude?”

Tento escolher um de cada. Acabo por selecionar vários por ordem alfabética, como é meu apanágio.

Entro na sala com o pé direito, tentando disfarçar a superstição para não parecer fraca. Faço figas com as mãos agora suadas.

Com tantas questões, esqueço-me de dizer boa tarde e a pessoa antecipa-se.

Falo pouco, mas sem pressas ou atropelos. Mostro o meu currículo, os meus trabalhos, os meus méritos. As recomendações dos outros sobre mim. Não falo de assuntos negativos ou polémicos.

Abdico do “acho que”, do “não tenho certeza”, do “não sei bem”.

A pessoa olha-me de quando em onde e eu penso que devia ter lavado os dentes depois do almoço.

“Falta de tempo!”, explico-me, e logo volto à conversa.

Digo o que quero para mim e para eles. Falo dos limites que não tenho.

A pessoa levanta-se. Dá-me um aperto de mão e diz que me voltará a contactar no final de se apresentarem todos os que, agora e ali, são iguais a mim.

Aguardei contacto. Pensei na camisola. “Teria feito diferença?”

A miúda que entrou depois de mim ficou com o lugar. Soube pelo rapaz a quem dei o número de telemóvel nos entretantos.

Não lho dei por isso, mas pelos seus olhos. Ele não se apercebeu da minha segunda intenção ou da cor dos meus.

A miúda que entrou depois de mim tinha o último nome igual ao da pessoa que me entrevistou. Reis, segundo o rapaz.

Acredito que foi a policromia da minha camisola que baralhou a pessoa acerca das minhas intenções… e capacidades.

Ela, a miúda, levava uma blusa amarela.

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