Todos temos duas vidas (Português)

By Barbara Matias

É como se a nossa vida se dividisse em duas.

Aquela de segunda a sexta-feira, das nove às cinco. Da correria e do cinzento. Da comida mal mastigada, mal digerida e mal temperada, como essa mesma vida.

SONY DSC

Flickr – Vincente Alfonso

A vida do que “horas são”, do “estou atrasado”, do “já vais tarde” mal-humorado.

A vida dos dias de chuva e do pé na poça, do cabelo desalinhado. Da camisola às avessas, como essa vida.

A vida onde os “adeus” são mais do que os “olás”. Onde vamos emudecendo até adeus deixarmos de dizer.

A vida onde vamos morrendo, mais depressa do que devíamos.

Depois há vida que nos acontece nos entretantos.

Uma vida que nasce entre e através de cliques. Onde somos extraordinários, um em mil milhões. Sabemos falar do estado do tempo, de política internacional e de astrofísica, com o igual entusiasmo wikipediano.

A vida onde ficamos sempre bem na fotografia, onde o mau tempo não atrapalha.

A vida que nos traz amigos do outro canto do mundo. Esses amigos ensinam-nos as suas comidas cheias de tempero.

A vida onde a noite se faz dia para tudo se poder fazer e ver. Para tudo se ser.

Nessa vida de entretantos somos policromáticos, somos quem mais gostamos.

Procuramos quem nos preencha. Quem nos aqueça o coração ao som da nossa música favorita.

Flickr - Mike_Cantwell

Flickr – Mike_Cantwell

Procuramos o que nos preencha. O trabalho de sonho, na cidade de sonho, com uma remuneração que nos realize os sonhos que ainda estão por vir.

A vida do arco-íris e da busca incessante pelo pote de ouro.

A vida que criamos na rede tem mais de nós do que a vida que nos dá o dia-a-dia.

Acabamos por colocar mais de nós nesta segunda vida, porque nos é permitido escolher, opinar, ir onde queremos e até onde queremos. Ser, apagar o que se foi em segundos e renascer.

Estas duas vidas são o que somos hoje. Os que têm apenas uma são uma espécie em vias de extinção e, ou se adaptam, ou morrem. Na primeira. Porque a segunda dá-nos a eternidade.

Por lá fica o que por lá fomos, num armazém coletivo de memórias.

 barabaraAutor: 

Bárbara Matias, aspirante a jornalista e aluna do Mestrado em Ciências da Comunicação na UTAD, Portugal.

facebook.com/porqueusoumuitas

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s